Por que o mercado tem coisas diferentes em cada época?

Foto: Orgulho Xepa

Foto: Orgulho Xepa

Desvendamos os mistérios da sazonalidade

Todo mês a gente publica uma lista de produtos que estão em melhor oferta no mercado, atualizada pelo Ceagesp, e receitas onde esses alimentos frescos são galãs, estrelas, pin-ups, ídolos, salvadores da pátria, heróis, rock’n roll na cozinha.

É uma maneira linda de se alimentar bem, colaborar com a sustentabilidade, ficar devidamente vitaminado e ainda economizar dinheirinha.

Mas como o mercado varia a cada semana, dependendo da época e lugar, ficam alguns mistérios e dúvidas atrozes. Por isso que a gente consultou o agrônomo Eduardo Guimarães, da Agrossuisse, que foi da maior simpatia e didática.

Compartilho com vocês as nossas dúvidas que ele esclareceu.

Orgulho Xepa: As pessoas nos perguntam se a lista de produtos da estação vale para todo Brasil. Vale?

Eduardo: Existem variações regionais, mas são pequenas e pontuais. O que predomina na definição da sazonalidade é a característica climática ideal para o cultivo. Por exemplo, a colheita de morango ocorre no inverno, em áreas com temperaturas baixas. Porém, em alguns locais com altitude e temperatura baixa, mesmo no verão, com variedades específicas e cultivo protegido é possível colher morangos.

A colheita dos produtos está relacionada às condições climáticas ideias por cultura, mas a região do país pode favorecer a produção ou não.

Outro exemplo: A couve-flor gosta de temperaturas amenas e a colheita ideal ocorre no inverno. Em regiões quentes, sem inverno acentuado, isso não é possível, mesmo que ela seja sazonal de inverno. Em regiões de altitude com temperaturas amenas ao longo do ano é possível colher couve-flor o ano todo.

Não se planta maçã no nordeste, pois ela é de clima frio.

Orgulho Xepa:  É por isso que às vezes encontramos no mercado produtos orgânicos que em teoria estariam fora de época? A gente achava que isso só era possível com o cultivo convencional, com adubos químicos e tal.

Eduardo: Veja, o adubo químico ou orgânico não muda a capacidade de produção relacionada a sua adaptação a estação do ano.  É possível produzir lavouras o ano todo com uso de tecnologias como cultivo protegido (estufas), que podem criar condições favoráveis.

As plantas respondem primeiramente às condições climáticas ideais para seu desenvolvimento, mas é possível criar condições para minimizar impactos por adversidade da região, como chuva e granizo. Não existe diferença entre sazonalidade entre a produção orgânica e a convencional. O que acontece é que alguns produtores de orgânicos investem em sistemas para reduzir risco de perdas na colheita.

Em certos casos, algumas regiões sofrem com condição adversa e outras não. Exemplo recente na região serrana do Rio: a geada estragou a produção de folhosas no bairro Brejal (1.200 metros de altitude). Mas as áreas abaixo de 700 metros não tiveram geada, por isso a produção não foi comprometida. As duas regiões estão a apenas a 10km de distância. O alface estava no período de safra mais favorável, mas condições adversas pontuais provocaram aumento nos preços por diminuição de quantidade.

Vários fornecedores convencionais queriam comprar alface orgânica das áreas não atingidas pela geada para atender seus clientes. Houve mais demanda que oferta, pois os produtores orgânicos têm clientes fixos.

Brócolis gostam do frio. Foto: Orgulho Xepa

Brócolis gostam do frio. Foto: Orgulho Xepa

Orgulho Xepa: A gente usa as informações sobre sazonalidade do CEAGESP.  O caminho é esse mesmo?

Eduardo: Não existe um documento que traduza da melhor forma possível o entendimento de sazonalidade de produção e disponibilidade de alimentos. O Ceagesp e o Ceasa representam uma sazonalidade mais próxima da realidade a nível nacional, já que são centros de recepção de produtos de todo Brasil.  O que não quer dizer que, quando avaliamos uma região que usa variedades específicas e tecnologia de produção, não seja possível ter um bom produto.

Nada como perguntar para quem sabe. Muito obrigada ao agrônomo Eduardo Guimarães e ao Eduardo Boorhem do Clube Orgânico por nos apresentar!

E você, ficou com alguma dúvida? Deixe seu comentário!